O crime organizado brasileiro hoje não pode ser entendido apenas como “tráfico de drogas”. Ele funciona como um ecossistema econômico e territorial, envolvendo tráfico internacional, armas, lavagem de dinheiro, contrabando, crimes ambientais, roubos, extorsões, fraudes e domínio de comunidades e unidades prisionais.
Um ponto metodológico é essencial: não existe uma estatística nacional capaz de dizer quantos crimes no Brasil foram praticados por facções. Homicídios, roubos e tráfico são registrados pela natureza do delito, mas nem sempre há identificação da organização criminosa responsável. Portanto, alguns números abaixo medem diretamente as organizações criminosas; outros mostram mercados nos quais elas têm participação importante.
1. Quantas organizações criminosas existem?
O levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais identificou 88 organizações criminosas/facções em atividade no Brasil, distribuídas por todos os estados. Em levantamento relacionado ao sistema penitenciário, essas organizações foram identificadas em 1.760 pavilhões prisionais, e 91% foram classificadas como possuidoras de expressivo poder financeiro.
A estrutura não é homogênea. Há dezenas de organizações locais ou regionais, enquanto PCC — Primeiro Comando da Capital — e Comando Vermelho são as organizações de maior projeção nacional e transnacional. O diagnóstico governamental recente caracteriza o cenário como formado por múltiplas organizações, modelos de atuação e territórios.
Isso significa que dizer que o Brasil possui apenas “duas grandes facções” simplifica excessivamente o problema. PCC e CV são os polos mais importantes, mas existe uma rede de organizações regionais que pode cooperar, romper alianças ou guerrear com esses grupos.
2. Expansão territorial das facções
Um dos indicadores mais fortes de expansão está na Amazônia Legal, região especialmente estratégica porque conecta o Brasil a países produtores de cocaína e contém extensas redes fluviais e fronteiras internacionais.
O levantamento Cartografias da Violência na Amazônia 2025 encontrou esta evolução:
| Indicador | 2023 | 2024 | 2025 |
| Municípios sob influência de facções | 178 | 260 | 344 |
| Presença do Comando Vermelho | 128 | 211 | 286 |
| Presença do PCC | 93 | 89 | 90 |
Ou seja, em apenas dois anos, o número de municípios amazônicos identificados com influência de facções passou de 178 para 344, aumento de aproximadamente 93%.
Dos 772 municípios da Amazônia Legal, portanto, cerca de 44,6% apresentavam influência de alguma facção em 2025.
O levantamento identificou:
- 258 municípios controlados predominantemente por uma facção;
- 86 municípios com disputa entre grupos;
- 17 facções diferentes atuando na região;
- CV presente em 286 municípios;
- PCC presente em 90.
O crescimento do CV chama particularmente atenção: sua presença amazônica passou de 128 para 286 municípios entre 2023 e 2025, mais que dobrando.
3. Por que a Amazônia se tornou tão importante?
Há uma explicação geográfica.
O Brasil não é um grande produtor mundial de cocaína. Entretanto, faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, países centrais na cadeia de produção da cocaína.
Assim, território brasileiro pode funcionar simultaneamente como:
Entrada → Armazenamento → Redistribuição → Mercado Interno → Exportação Internacional.
Na Amazônia, rios extensos, floresta densa, pistas clandestinas e fronteiras enormes tornam a fiscalização extremamente complexa. O relatório do FBSP identifica o Brasil como rota de trânsito, armazenamento e plataforma de exportação, inclusive por portos no Atlântico.
Isso ajuda a compreender por que a disputa territorial não envolve apenas pontos de venda de drogas. Muitas vezes envolve corredores logísticos inteiros.
4. O tamanho do tráfico de drogas aparece nas apreensões
Dados nacionais do Ministério da Justiça mostram volumes extremamente elevados.
Cocaína apreendida
Em 2023:
130.115 kg
Em 2024:
137.357 kg
Crescimento:
+5,57%
Isso corresponde a aproximadamente 137 toneladas de cocaína apreendidas em um único ano.
Maconha apreendida
2023:
1.284.239 kg
2024:
1.411.803 kg
Crescimento:
+9,93%
Portanto, foram aproximadamente 1.412 toneladas de maconha apreendidas pelas forças consideradas na estatística nacional em 2024.
Só a Polícia Rodoviária Federal informou ter apreendido, nas rodovias federais em 2024, mais de 850 toneladas de drogas, principalmente maconha e cocaína. Foi aumento de aproximadamente 21,3% sobre 2023.
⚠️ Existe uma ressalva importante: apreensão não equivale ao volume total traficado.
Se a polícia apreende mais drogas, isso pode significar simultaneamente:
- Aumento da eficiência policial;
- Aumento do volume transportado;
- Mudança de rotas;
- Combinação desses fatores.
Logo, não é correto concluir automaticamente que “o tráfico aumentou 10%” porque as apreensões aumentaram 10%.
5. Cocaína e Amazônia
O crescimento das apreensões na Amazônia é ainda mais expressivo.
Entre 2019 e 2024, as polícias estaduais da Amazônia Legal apreenderam aproximadamente 162 toneladas de cocaína.
O crescimento acumulado das apreensões no período foi de aproximadamente 574%.
Somente entre 2023 e 2024 houve crescimento de 21%.
Esse fenômeno reforça a importância da Amazônia dentro das rotas transnacionais.
6. Crime organizado e homicídios
Aqui é necessário evitar uma associação simplista.
O Brasil registrou em 2024:
44.127 mortes violentas intencionais.
Taxa:
20,8 mortes por 100 mil habitantes.
Foi redução de 5,4% em relação a 2023 e a menor taxa registrada na série do Fórum Brasileiro de Segurança Pública desde 2012.
Isso produz um aparente paradoxo:
As facções estão se expandindo territorial e economicamente enquanto o número nacional de homicídios diminui.
Mas os dois fenômenos não são necessariamente contraditórios.
Uma organização criminosa consolidada pode preferir estabilidade territorial a guerras permanentes. Quando existe monopólio criminal, os homicídios entre facções podem cair; quando ocorre ruptura de alianças ou disputa por território, podem subir rapidamente.
Portanto:
Mais poder do crime organizado não significa obrigatoriamente mais homicídios em todos os momentos.
Esse é um dos pontos mais importantes para interpretar as estatísticas brasileiras.
7. Onde o efeito das facções aparece com maior intensidade
Na Amazônia Legal, em 2024, foram registradas:
8.047 mortes violentas intencionais.
Taxa:
27,3 por 100 mil habitantes.
Isso ficou aproximadamente 31% acima da média nacional.
O Amapá apresentou taxa de:
45,1 mortes por 100 mil habitantes
em 2024, uma das mais elevadas do país.
Mas novamente não é metodologicamente correto atribuir todas essas mortes às facções. Crimes interpessoais, violência doméstica, confrontos policiais e outras situações entram nas estatísticas de mortes violentas.
8. O sistema prisional continua central
Os dados mais recentes da SENAPPEN, referentes ao segundo semestre de 2025, indicam:
| Situação | Pessoas |
| Total de pessoas privadas de liberdade | 960.976 |
| Em celas físicas | 727.301 |
| Domiciliar com monitoramento eletrônico | 129.810 |
| Domiciliar sem monitoramento eletrônico | 103.271 |
O Brasil possuía 1.360 estabelecimentos prisionais no levantamento.
Esse aspecto é fundamental porque várias organizações brasileiras tiveram sua expansão associada à própria dinâmica penitenciária.
O presídio pode atuar como:
Local de recrutamento + Proteção + Socialização Criminal + Comunicação + Formação de Alianças.
O fato de a SENAPPEN ter mapeado organizações criminosas em 1.760 pavilhões prisionais ajuda a dimensionar o desafio.
9. O crime organizado mudou de modelo
Talvez a transformação mais importante seja econômica.
O modelo antigo era:
Droga → Venda → Dinheiro Vivo.
O modelo atual pode envolver:
Tráfico → Empresas → Contas Bancárias → Imóveis → Transportadoras → Comércio → Fintechs e Intermediários → Investimentos → Patrimônio Aparentemente Lícito.
Um exemplo do tamanho dessas redes surgiu na Operação Countless, da Polícia Federal, em 2025. Segundo a investigação, empresas associadas ao mecanismo investigado fizeram movimentações superiores a R$ 10 bilhões no período analisado. A operação investigava lavagem de recursos ligados principalmente ao tráfico.
Esse valor não significa que uma única facção lucrou R$ 10 bilhões, mas mostra a escala que determinadas redes financeiras investigadas podem alcançar.
10. Descapitalização das organizações
Em 2024, a Polícia Federal calculou ter imposto aproximadamente:
R$ 5,6 bilhões de prejuízo ao crime organizado.
No ano anterior:
R$ 3,3 bilhões.
Crescimento:
+70%
Na descapitalização estimada.
Esse indicador é importante porque mostra uma mudança na estratégia estatal.
Prender traficantes individualmente pode simplesmente produzir substituição de integrantes.
Atacar:
Dinheiro + Empresas + Patrimônio + Logística + Liderança + Comunicações
Tende a atingir a estrutura da organização de maneira mais profunda.
11. As organizações estão diversificando os crimes
O crime organizado contemporâneo brasileiro participa, em diferentes graus e regiões, de mercados como:
| Mercado ilícito | Função |
| Cocaína | distribuição nacional e exportação |
| Maconha | importação, produção e distribuição |
| Armas | abastecimento das estruturas criminosas |
| Contrabando | cigarros, eletrônicos e outros produtos |
| Roubo de cargas | obtenção e revenda de mercadorias |
| Extorsão | cobrança de moradores e comerciantes |
| Garimpo ilegal | ouro e exploração territorial |
| Madeira ilegal | exploração ambiental |
| Combustíveis | furto, adulteração e distribuição irregular |
| Fraudes | obtenção de recursos |
| Lavagem de dinheiro | integração dos lucros à economia formal |
O TCU também destaca a diversificação para tráfico de drogas e armas, contrabando e utilização de empresas regulares para movimentar e ocultar patrimônio.
Portanto, uma definição contemporânea mais adequada seria:
A facção deixou de ser apenas uma organização de traficantes para se aproximar de uma empresa criminal diversificada.
12. PCC × Comando Vermelho
As duas organizações possuem trajetórias e modelos diferentes.
PCC
Originado no sistema penitenciário paulista, construiu uma estrutura com forte capacidade de articulação econômica e logística. Sua importância está especialmente nas redes interestaduais e internacionais.
Comando Vermelho
Originado no Rio de Janeiro, permanece fortemente associado ao controle territorial, mas ampliou de maneira extraordinária sua influência nacional, sobretudo na Amazônia.
O dado amazônico é revelador:
PCC: 93 → 89 → 90 municípios.
CV: 128 → 211 → 286 municípios.
Portanto, nessa região específica, o movimento recente mais impressionante não é simplesmente a expansão das facções, mas a expansão muito acelerada do Comando Vermelho.
13. Mapas das facções por estado e município
- Sim. Para um levantamento por estado e por município, a melhor base oficial que encontrei é o Mapa das Organizações Criminosas (ORCRIMs) da SENAPPEN, do Ministério da Justiça. O levantamento mais recente disponibilizado oficialmente é o Mapa ORCRIM 2024 e identifica pelo menos 88 grupos criminosos que tiveram impacto no sistema prisional brasileiro nos três anos considerados pelo estudo.
- O ponto importante é que não existe um único mapa público, oficial e atualizado que atribua com precisão cada município brasileiro a uma facção dominante. Isso ocorre porque presença, aliança e domínio territorial mudam rapidamente e muitos dados de inteligência não são públicos. Para uma pesquisa científica, é melhor separar três níveis: presença da organização, predominância e território em disputa, sem tratar presença como sinônimo de controle.
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- Mapa por estado
- É possível construir uma base nacional contendo, para cada UF, organizações como PCC, Comando Vermelho e dezenas de facções regionais, usando prioritariamente a SENAPPEN. O próprio relatório classifica os grupos segundo área de atuação e impacto, a partir de informações das agências estaduais e distrital e de dados do sistema prisional.
- Mapa por município
- Aqui precisamos cruzar fontes. A SENAPPEN fornece a referência sobre organizações criminosas; bases estaduais, pesquisas acadêmicas, operações policiais e Secretarias de Segurança permitem aumentar a resolução territorial. Já a plataforma Crime Brasil possui indicadores criminais para mais de 2.900 municípios, embora ela mapeie criminalidade e não necessariamente qual facção controla cada cidade.
- Posso montar para você um Mapa Nacional das Facções Criminosas por Estado e Município, no formato:
| Estado | Município | Facção/grupo identificado | Situação |
| SP | municípios pesquisados | PCC / outros grupos identificados | presença, predominância ou disputa |
| RJ | municípios pesquisados | CV / TCP / ADA / milícias etc. | presença, predominância ou disputa |
| CE | municípios pesquisados | CV / GDE / PCC e grupos locais | presença, predominância ou disputa |
| BA | municípios pesquisados | grupos estaduais + nacionais | presença, predominância ou disputa |
| RN | municípios pesquisados | Sindicato do Crime / PCC / outros | presença, predominância ou disputa |
| AM | municípios pesquisados | CV / PCC / grupos regionais | presença, predominância ou disputa |
| PA | municípios pesquisados | CV / PCC / grupos regionais | presença, predominância ou disputa |
| RS | municípios pesquisados | grupos regionais + organizações nacionais | presença, predominância ou disputa |
14. O mapa brasileiro está se tornando uma rede
O modelo territorial do crime organizado pode ser entendido em quatro níveis:
Nível 1 — Comunidade/bairro: varejo de drogas, cobrança de dívidas, domínio armado.
Nível 2 — Cidade/região: distribuição, atacado, armas, roubos e lavagem.
Nível 3 — Interestadual: corredores rodoviários, aeroportos, portos e grandes fornecedores.
Nível 4 — Internacional: Bolívia, Paraguai, Peru, Colômbia e posteriormente mercados da Europa, África e outros destinos.
Por isso, eliminar um ponto local de drogas não necessariamente elimina a cadeia. O varejo pode ser apenas a extremidade visível de uma estrutura logística muito maior.
15. Um dos maiores riscos: a passagem do domínio armado para o domínio econômico
Esse aspecto merece atenção especial.
Quando uma organização criminosa depende exclusivamente de homens armados e pontos de drogas, ela permanece relativamente visível.
Quando passa a possuir:
Empresas,Transportadoras, Imóveis, Intermediários Financeiros, Comerciantes, Operadores Jurídicos, Servidores Corrompidos e Conexões Fmpresariais, sua identificação se torna muito mais difícil.
É justamente por isso que a política recente de enfrentamento enfatiza descapitalização, inteligência financeira, tráfico de armas, sistema prisional e lavagem de dinheiro, além da repressão ostensiva. O programa federal lançado em 2026 segue exatamente essas frentes.
16. Resumo Numérico
| Indicador | Número |
| Organizações criminosas identificadas no Brasil | 88 |
| Pessoas privadas de liberdade – 2025 | 960.976 |
| Custodiadas fisicamente | 727.301 |
| Mortes violentas intencionais – 2024 | 44.127 |
| Taxa nacional de MVI | 20,8/100 mil |
| Cocaína apreendida – 2024 | 137,4 toneladas |
| Maconha apreendida – 2024 | 1.411,8 toneladas |
| Drogas apreendidas apenas pela PRF – 2024 | +850 toneladas |
| Municípios amazônicos com facções – 2023 | 178 |
| Municípios amazônicos com facções – 2025 | 344 |
| Municípios amazônicos com presença do CV – 2025 | 286 |
| Municípios amazônicos com presença do PCC – 2025 | 90 |
| Facções identificadas na Amazônia – 2025 | 17 |
| Prejuízo estimado imposto pela PF às organizações – 2024 | R$ 5,6 bilhões |
17. Podemos concluir
Os números sugerem uma mudança estrutural no crime brasileiro.
O problema já não é adequadamente descrito como apenas “violência urbana causada pelo tráfico”. O fenômeno atual combina:
Controle Territorial + Sistema Prisional + Tráfico Internacional + Domínio de Rotas + Poder Financeiro + Lavagem de Capitais + Infiltração na Economia Formal.
E há um dado particularmente importante: enquanto a taxa nacional de mortes violentas caiu para seu menor nível desde 2012 em 2024, as organizações criminosas continuaram apresentando capacidade de expansão territorial, financeira e logística.
Isso indica que medir o poder do crime organizado apenas pelo número de homicídios é insuficiente. Para avaliar seu verdadeiro tamanho é necessário observar simultaneamente território, prisões, fluxos financeiros, drogas, armas, empresas utilizadas para lavagem e conexões internacionais.
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