Enquanto a imigração impulsionou a direita radical na Europa e nos Estados Unidos, na América do Sul a insegurança e o avanço do narcotráfico alimentam a ascensão conservadora. As vitórias de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Keiko Fujimori, no Peru, reforçam essa guinada, deixando Brasil e Uruguai como os últimos grandes redutos da esquerda na região.
A mudança política no continente reflete o avanço de uma direita alinhada ao estilo de Donald Trump, que busca influenciar diretamente campanhas conservadoras. Após vitórias na Colômbia e no Peru, aliados do ex-presidente americano já apontam o Brasil como próximo alvo estratégico dessa disputa política hemisférica.

A imigração, no Hemisfério Norte, e a segurança pública, na América do Sul, tornaram-se as manifestações mais visíveis de um sentimento de insatisfação com o sistema político tradicional, disseminado pelo mundo ao longo da última década. Esse desencanto enfraqueceu governos de esquerda, de direita e de centro, abrindo espaço para a ascensão de movimentos conservadores mais radicais, que prometem romper com as práticas das antigas lideranças e restaurar a ordem, ainda que por meio de medidas controversas.
“A dignidade nacional e a esperança triunfaram. Celebramos uma nova ordem: a Pátria Milagre”, declarou o colombiano De la Espriella, vestindo a camisa da seleção nacional, transformada em símbolo de sua campanha. Ao assumir o governo em 7 de agosto, ele encerrará o primeiro ciclo da esquerda no comando da Colômbia, atualmente representado pelo presidente Gustavo Petro, cuja gestão enfrenta elevada rejeição popular.
No Peru, onde o resultado da eleição ainda é contestado pelo candidato de esquerda Roberto Sánchez, Keiko Fujimori adotou o slogan “Fujimori de volta, a ordem de volta”. Em sua campanha, comparou o atual combate à criminalidade com a ofensiva conduzida por seu pai, Alberto Fujimori, contra grupos terroristas durante os anos 1990. A narrativa, no entanto, procura minimizar as acusações de corrupção e as graves violações de direitos humanos que marcaram aquele governo e resultaram na condenação e prisão do ex-presidente.
Keiko Fujimori venceu eleição acirrada para se tornar a 9ª presidente do Peru em dez anos. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Este clube em expansão é heterogêneo, mas se sustenta sobre um tripé comum: o discurso antissistema, uma agenda de mão pesada que coloca o combate ao crime acima de outras prioridades e a proximidade política com Donald Trump. Seu integrante mais recente, o colombiano Abelardo de la Espriella, reúne elementos de diferentes expoentes da nova direita latino-americana. Apresentou um programa genérico, batizado de “Treze milagres para salvar o país”, com propostas inspiradas no ultraliberal Javier Milei, entre elas a promessa de reduzir em 40% a máquina estatal. Até o apelido, El Tigre, parece ecoar o El León adotado pelo argentino.
Na área da segurança, sua principal referência é Nayib Bukele. De la Espriella reproduz inclusive parte da estética cuidadosamente construída pelo presidente salvadorenho: barba aparada, roupas justas e relógios de luxo. Bukele ganhou projeção ao endurecer o combate ao crime organizado, mas seu governo também é acusado de enfraquecer instituições e violar direitos humanos ao encarcerar milhares de suspeitos em megapresídios. “Vou fumigar as plantações de coca e bombardear os vilarejos”, proclama El Tigre, explorando o fracasso da promessa de Gustavo Petro de alcançar a chamada “paz total” por meio de negociações com os grupos armados que controlam parte significativa da produção mundial de cocaína. De la Espriella também promete construir dez megapresídios na floresta e eliminar dez chefes do narcotráfico nos primeiros noventa dias de governo.

‘Escudo das Américas’ reúne aliados conservadores e de direita em debate sobre a América Latina | Crédito: Reprodução/White House
A insatisfação popular com quem governa é recorrente e alimenta o movimento pendular típico da política sul-americana. Na virada para o século XXI, uma onda vermelha levou ao poder uma geração de líderes progressistas — Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e Cristina Kirchner na Argentina —, impulsionada pelo desgaste das reformas neoliberais dos anos 1980 e 1990 e pelo ciclo de alta das commodities.
A maré começou a virar em 2015, quando crises econômicas e escândalos políticos abriram espaço para forças de direita. O pêndulo tornou a se mover após a pandemia, que desorganizou economias e aprofundou o voto de rejeição: em 90% das eleições sul-americanas realizadas no período, os governistas foram derrotados, dando origem a uma segunda onda vermelha, menos vigorosa, que agora perde força (veja os mapas). “O desejo de mudança continua sendo a maior força política do continente, e a polarização acelerou as guinadas”, diz Jorge Sahd, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica do Chile.
A principal melhora foi transformar uma sucessão um pouco mecânica de fatos em uma narrativa de ondas, marés e pêndulos, sem exagerar nas metáforas. Uma por fenômeno já basta; três começam a formar uma previsão meteorológica.
Uma diferença crucial distingue a nova maré conservadora das anteriores: seus protagonistas já não são os conhecidos representantes da centro-direita, em oposição aos progressistas, mas integrantes de uma geração mais estridente, formada, em grande parte, por outsiders políticos. Eles prosperam em meio à insatisfação popular e à polarização que marcam as disputas eleitorais mundo afora. “Não é insatisfação apenas com o presidente em exercício, mas com todo o status quo”, explica o historiador Norberto Ferreras, da UFF. Economista e presença constante em talk shows, Javier Milei atropelou a direita tradicional argentina com um partido pequeno e recém-criado. No Equador, Daniel Noboa avançou sem depender do Partido Social Cristão, que por décadas dominou o campo conservador do país. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella superou, já no primeiro turno, Paloma Valencia, representante do Centro Democrático, legenda que reuniu a outrora predominante direita colombiana sob a liderança do ex-presidente Álvaro Uribe.
Nesse cenário, a segurança pública tornou-se terreno fértil para a direita radical, que atribui a governos progressistas tolerância diante do crime. Embora a taxa média de homicídios na região tenha caído 5% em 2025, assassinatos, sequestros e extorsões ligados ao narcotráfico avançaram na Colômbia, no Peru e no Equador. “A transnacionalização do crime organizado favorece as propostas da direita, mesmo que elas não enfrentem a raiz do problema”, afirma Marie-Christine Doran, autora de A Face Oculta da Violência: Criminalizando a Democracia na América Latina.
Trump usa a guerra aos “narcoterroristas” para justificar pressões financeiras e militares sobre governos de esquerda e fortalecer aliados ideológicos na região. A oferta de apoio americano na segurança tornou-se um instrumento de influência diante do desgaste das políticas tradicionais, avalia Carolina Pedroso, da Unifesp.
A adesão regional à ofensiva de Trump ficou evidente quando 60% dos latino-americanos apoiaram a operação americana que capturou Nicolás Maduro, em janeiro. Sua sucessora, Delcy Rodríguez, manteve o bolivarianismo no discurso, mas alinhou o governo venezuelano à Casa Branca. A aproximação foi reforçada após o terremoto que agravou a crise no país e consolidada com a criação do Escudo das Américas, aliança formalizada em março entre os Estados Unidos e doze governos latino-americanos. Paralelamente, ataques americanos contra embarcações suspeitas de narcotráfico no Caribe e no Pacífico já deixaram mais de 200 mortos.
Neste ano eleitoral, a direita brasileira busca se alinhar a Trump e a líderes conservadores da região, usando o combate ao crime como bandeira internacional. Flávio Bolsonaro e Romeu Zema celebraram a vitória de De la Espriella e afirmaram que a reeleição de Lula isolaria o Brasil. A estratégia, porém, esbarra na opinião pública: embora 59% apoiem classificar PCC e CV como terroristas, 74% rejeitam uma intervenção americana direta no país.
Ainda é cedo para saber se a guinada conservadora na América do Sul será duradoura. O futuro dos novos líderes dependerá menos do discurso ideológico e mais da capacidade de melhorar a vida da população. Kast já enfrenta protestos no Chile; Rodrigo Paz reagiu com estado de emergência às manifestações na Bolívia; De la Espriella terá de governar com apoio reduzido no Senado colombiano; e Keiko enfrentará a crônica instabilidade política peruana. Trump pode impulsionar aliados nas urnas, mas governar exige muito mais do que habilidade no palanque.
Era fim de tarde e plena hora do rush em Caracas, na quarta-feira 24, quando dois terremotos de magnitude superior a 7 sacudiram a Venezuela em apenas 39 segundos. O abalo, o mais destrutivo registrado no país desde 1900, foi sentido na Colômbia e no Norte do Brasil. Em várias cidades, dezenas de edifícios desabaram, deixando um amplo rastro de destruição.
Até quinta-feira 25, a catástrofe já havia deixado mais de 200 mortos, 1 000 feridos e cerca de 36 000 desaparecidos. Diante da extensão da destruição, especialistas temem que o número de vítimas chegue a dezenas de milhares.
Caracas: busca por vítimas do duplo terremoto
Mesmo com réplicas dos tremores ainda ocorrendo e hospitais sobrecarregados, o governo interino declarou estado de emergência e anunciou esforços para resgate das vítimas. A crise atinge um país já fragilizado por uma grave recessão econômica, com colapso do PIB, sistema de saúde precário, infraestrutura elétrica instável e escassez de água. Diante desse cenário, foi criado um fundo de 200 milhões de dólares com apoio internacional, incluindo Brasil e Estados Unidos, para auxiliar na reconstrução.
